A Fifa, verdade, não é nenhuma flor que se cheire. Afinal, promover um evento onde não gasta nada, mas lucra valores exorbitantes à custa do dinheiro público não me parece nada justo. Entretanto, se os governantes resolveram aceitar a proposta indecente e pretendem aliviar o prejuízo atraindo turistas e investimentos para o país, não poderiam fazer isso de forma mais errônea - ou pelo menos atrasada.
Se você não está por dentro da história, eu explico: o dirigente francês enviou documento ao ministro do Esporte Aldo Rebelo, criticando o país quanto ao andamento das obras de mobilidade e dos aeroportos, além dos demais ajustes necessários para o andamento da copa no país, ou o andamento do país durante a copa. Mas o trecho que diz "se donner un coup de pied aus fesses" (sugerindo um pé na bunda para acelerar os trabalhos) enfureceu o Governo, que já mantinha um certo atrito com a entidade internacional.
A cabeça de Walcke foi pedida pelos brasileiros, a Fifa diz que ele continua como interlocutor para o Mundial de Futebol nas terras tupiniquins, e a briga se mantém, feia. Para tentar acalmar os ânimos, o dirigente pediu desculpas, alegando que a tradução foi a culpada pelo transtorno, pois deu sentido ofensivo ao termo. Convenhamos: ninguém gosta de levar um chute no traseiro, aqui, na França, EUA, China, Austrália, ou Antártida. Em qualquer canto isso é ofensa.
E no meio da discussão está o brasileiro. O brasileiro que sofrerá com a falta de mobilidade nas ruas lotadas durante os jogos. O brasileiro que vai assistir aos jogos de casa, vendo as onerosas cadeiras dos estádios lotadas de gente branca, outras de olhos puxados, de línguas estranhas, bebendo cerveja - a lei que proíbe consumo de álcool nos estádios deverá ser revogada durante a Copa. Enquanto as autoridades brigam em vez de trabalhar, as obras continuam lentas. E os relógios continuam andando, ou melhor, correndo.
Se, numa empresa privada, quem traz prejuízo é posto para fora, isso parece não valer para a administração pública brasileira. Prepare-se. Enquanto o Governo e a Fifa merecem nossos pés em suas bundas, o brasileiro, "o chefe", é quem corre o risco de chegar a 2014 levando chute no traseiro - o pontapé inicial do Mundial.
*Desconsidere qualquer erro de francês.
*Desconsidere qualquer erro de francês.

