terça-feira, 6 de março de 2012

"Se donner un coup de pied aux fesses, Brésil"

Dizer que o Brasil precisa de um chute na bunda não foi a ideia mais feliz do secretário-geral da Fifa. Jerome Walcke habitou páginas em boa parte dos noticiários nacionais nesses dias. E não é à toa. É que muita gente no Brasil - exceto você, leitor, e toda sua família, amigos e mais alguns - não gosta de cumprir obrigações. Mas ser atingido por um pé nos glúteos não está em questão.

A Fifa, verdade, não é nenhuma flor que se cheire. Afinal, promover um evento onde não gasta nada, mas lucra valores exorbitantes à custa do dinheiro público não me parece nada justo. Entretanto, se os governantes resolveram aceitar a proposta indecente e pretendem aliviar o prejuízo atraindo turistas e investimentos para o país, não poderiam fazer isso de forma mais errônea - ou pelo menos atrasada.

Se você não está por dentro da história, eu explico: o dirigente francês enviou documento ao ministro do Esporte Aldo Rebelo, criticando o país quanto ao andamento das obras de mobilidade e dos aeroportos, além dos demais ajustes necessários para o andamento da copa no país, ou o andamento do país durante a copa. Mas o trecho que diz "se donner un coup de pied aus fesses" (sugerindo um pé na bunda para acelerar os trabalhos) enfureceu o Governo, que já mantinha um certo atrito com a entidade internacional.

A cabeça de Walcke foi pedida pelos brasileiros, a Fifa diz que ele continua como interlocutor para o Mundial de Futebol nas terras tupiniquins, e a briga se mantém, feia. Para tentar acalmar os ânimos, o dirigente pediu desculpas, alegando que a tradução foi a culpada pelo transtorno, pois deu sentido ofensivo ao termo. Convenhamos: ninguém gosta de levar um chute no traseiro, aqui, na França, EUA, China, Austrália, ou Antártida.  Em qualquer canto isso é ofensa.

E no meio da discussão está o brasileiro. O brasileiro que sofrerá com a falta de mobilidade nas ruas lotadas durante os jogos. O brasileiro que vai assistir aos jogos de casa, vendo as onerosas cadeiras dos estádios lotadas de gente branca, outras de olhos puxados, de línguas estranhas, bebendo cerveja - a lei que proíbe consumo de álcool nos estádios deverá ser revogada durante a Copa. Enquanto as autoridades brigam em vez de trabalhar, as obras continuam lentas. E os relógios continuam andando, ou melhor, correndo.  

Se, numa empresa privada, quem traz prejuízo é posto para fora, isso parece não valer para a administração pública brasileira. Prepare-se. Enquanto o Governo e a Fifa merecem nossos pés em suas bundas, o brasileiro, "o chefe", é quem corre o risco de chegar a 2014 levando chute no traseiro - o pontapé inicial do Mundial.

*Desconsidere qualquer erro de francês.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Pequena diferença...

Numa dessas tardes poéticas de domingo, vi três crianças se divertindo com coisa simples, como fazem todas as crianças - pelo menos as de outrora. Numa pequena carroça puxada por um trator, riam e brincavam enquanto passavam em frente à minha casa. O motorista, talvez o avô de um daqueles meninos, dirigia calmamente a máquina enquanto, freneticamente, os guris cantavam, batiam palmas e faziam outras molecagens.

Lembrei-me de minha infância, das brincadeiras com minha irmã, com meus amigos. Era simples como eles. Não precisava de computador, videogame ou outro brinquedo eletrônico. E na simplicidade, a criatividade imperava. Como eles cantava. Depois da nostalgia, a diferença. Percebi que não cantavam "hoje é domingo pé de cachimbo", "adoleta" ou qualquer outra dessas canções que enchiam nossas tardes de final de semana. A música já não era mais tão singela como no meu velho tempo, que passou há poucos anos. Agora cantam "ai se eu te pego". Ai se eu pego quem inventou essa música!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Autocensura na era da liberdade de expressão


Provavelmente você já ouviu falar do mito, ou alegoria, da caverna, cujo autor, Platão, usou para debater a realidade, a irrealidade e a percepção das coisas a partir dos nossos sentidos. Resumindo de forma chula e incompleta, a história é de um grupo que vivia (nasceu e cresceu) dentro de uma caverna, na qual a luz entrava por uma fresta.  Porém, de costas para a entrada dos raios solares, virados para a parede da gruta, eles só viam suas próprias sombras. Associavam, portanto, tudo o que faziam às suas imagens projetadas, e, por fim, elas eram sua realidade, eram eles mesmos. O filósofo acreditava que, no momento em que um desses indivíduos saísse da caverna  e voltasse para alertar seus companheiros a respeito da verdade, ele seria simplesmente ignorado, ou agarrado e morto por estar fora do juízo. Tudo por estar mudando o status quo.

Não sei quanto a você, mas a realidade da comunicação no Brasil me lembrou esse mito. Sem querer parecer um esquerdista dos mais fervorosos, mas não encontrando outro termo mais adequado, a elite sempre dominou a informação nesse país. Informação que é diferente de comunicação. Enquanto informação é unilateral - do emissor para o receptor - a comunicação tem retorno, tem debate, é mais eficiente, mais democrática. Como falava, o poder estava com os poderosos (desnecessário e redundante), desde o início da mídia impressa brasileira até o rádio e a televisão. Eles decidiam a agenda de debates sociais, o que o povo deveria ou não saber, ou em quem, ou não, votar.

A situação piorou durante a "revolução", a ditadura militar mesmo. Então, quem dizia o que seria ou não comentado e conhecido não era o rico empresário, mas o governo, e somente ele. Foram anos de lutas pela redemocratização, pelo direito de liberdade de expressão, etc. Enfim, depois de décadas, o brasileiro voltou a assistir, ouvir e ler o que os conglomerados da comunicação, ou da informação queriam que ele assistisse, ouvisse e lesse. E, quando o brasileiro tinha a liberdade de expressão, mas pouco aparato para utilizá-la, conheceu a internet, lá pelos anos 90.

A internet quebrou todos os paradigmas de troca de informações. Agora, o povo não depende mais de conglomerados para se comunicar. Pode transmitir idéias e pensamentos e, da mesma forma, conhecer outros pontos de vista. Entretanto, no turbilhão das mudanças, surgiram os conflitos e censuras; não mais por parte do governo, nem de qualquer organização. Os próprios internautas parecem não aceitar o debate. A internet está cheia de xingamentos, ofensas, grosserias. As pessoas não sabem respeitar o ponto de vista alheio e não é possível falar nada sem ofender, magoar e ser acusado de preconceito contra alguém. Não é culpa totalmente nossa, afinal não fomos ensinados a argumentar e parecemos perdidos em meio a tantas divergências. Só recebíamos a papinha e agora o osso está difícil de roer.

Comediantes são processados por qualquer piada; quem não concorda com homossexualismo é homofóbico; quem é a favor da descriminalização de drogas é drogado e quem torce para tal time é ladrão. Parece que não somos um ser humano completo, uma pessoa de idéias e raciocínio complexo, mas uma figura formada por várias máscaras e personagens, nem todas criadas por nós mesmos.

E numa situação onde a liberdade é atingida pela intransigência de alguns que poderiam ser livres, a autocensura (não a boa, mas a opressora) fará parte de cada pessoa que queira alertar os companheiros da "verdade". Entenda: a autocensura é importante, mas prejudicial, caso ela suprima seus próprios conceito, valores e ideais. É uma pena. Do turbilhão de argumentos e opiniões é que a democracia se alimenta, as pessoas aprendem, pensam, e crescem. Só espero que a autocensura não acabe com nossas palavras, os grunhidos tomem lugar delas e habitemos em cavernas, voltados às sombras.
Fotos: Igor Jácome

sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz 2012

Todo ano o mesmo encanto. O tempo encanta quem pouco dele tem. O olhar brilhando ao ver os fogos, não pela sua luz, mas pela representação daquele momento especial. Quão bom é ser criança, ver os fogos explodindo em cores e a aurora romper num novo dia, num novo ano. Em que outra época do ano há tanta luz? Em que outra ocasião ela pode dormir tão tarde - um sonho simples de criança?

O tempo encanta, fascina, mas avisa a quem muito dele tem: não há muito tempo. A criança dentro do coração endurecido aquece na emoção. Relembra as coisas boas, e as ruins também: os "nãos", os "sins", os "eu te amo", ou a falta de todos eles. Não importa. A criança pula, ou tenta pular novamente dentro do corpo mais lento. Não importa. Há sempre mais esperança numa data com essa. Então ela acredita que pode mudar o mundo, mesmo que não tenha conseguido o feito nas ultimas setenta tentativas, nos últimos setenta anos. Não importa. O ano novo traz esperança, mesmo que o tempo diga ao homem que ele não tem mais tempo.

Tente mudar o mundo em 2012! Aproveite o tempo!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

E o pintinho piu!


Ia comprar pão quando vi aquela bolinha marrom aos pés do muro da esquina. Tentei decifrar o que era aquilo. Um pássaro, ao final constatei, muito pequeno; certamente um filhote. A outra missão era saber de sua condição. Ainda se tratava de um ser, ou um corpo desovado na rua? Ao tocá-lo pude senti-lo respirar, mas ele tinha que sair dali.

- Vou comprar os pães, depois volto em casa, pego uma caixinha e o tiro daqui.

Continuei meu caminho, comprei os pães de todos os tipos encontrados na padaria. E voltava para salvar meu amiguinho marrom. Não demorei mais que dez minutos, mas não o encontrei mais. Por certo virou lanche de algum felino (não sou muito chegado a gatos) desavisado do meu apadrinhamento pelo pequeno bicudo.

Esse poderia ter sido, de fato, o trágico fim daquela bola de penas. Mas não foi.

Enquanto rumava para a padaria, as possibilidades do segundo parágrafo me vieram à mente. Aquilo era mais urgente. Uma vida, mesmo de um pássaro, não pode esperar por... pães. Voltei alguns passos e liguei para casa.

- Hadassa, traz uma caixinha pequena aqui na esquina.
- Pra quê?
- Encontrei um bebê de passarinho.


Pouco tempo esperei até avistar minha irmã trazendo uma caixa de sapato, que não é exatamente uma caixa pequena comparada ao tamanho do bichinho.

Katia foi chamada para coloca-lo na caixa. Não havia nojo ou medo de uma bicada. Ele parecia tão frágil, que uma mão mais forte poderia feri-lo - achávamos. Abriu as asas como para crescer e intimidar os ferozes predadores, porém acabou sendo empurrado subitamente e caiu na armadilha de papelão.

- Ele é bravinho - Disse Kátia.
- Temos que dar um nome a ele: Pintinho Piu, talvez -  Lembrei da modinha da internet.

Hadassa não concordou. O nome seria mesmo “Bravinho”.

Nota do autor:  alguém sabe como alimentar um filhotinho de passarinho?

domingo, 25 de dezembro de 2011

Feliz o quê?


Feliz Natal – a data mais esperada do ano.

Feliz Natal de lojas cheias, sacolas estufadas. Dinheiro entrando no bolso de uns, escasseando na carteira de outros.

Feliz Natal de Papai Noel de shopping. Emprego para os que passaram o ano desempregados. Ganham mentindo por um espírito natalino. Ouvem desejos que não serão realizados (em boa parte). Usam barbas postiças, mal feitas, roupas quentes e sapatos duros. Feliz Natal.

Feliz Natal de casas e ruas iluminadas, árvores típicas de outras regiões do mundo, todas cheias de enfeites, firulas e pacotes coloridos.

Feliz Natal da solidariedade. A única época do ano em que asilos e orfanatos não têm do que reclamar. Meses em que se recusa voluntários por tanto candidato aparecer.

Feliz Natal das confraternizações. Festas em que alguns fingem que são amigos, que gostam do chefe que consideram insuportável. Festas em que o abraço pode ser de um amigo ou do mais feroz desafeto. E não pense que é uma oportunidade de reatar uma amizade: o próximo abraço só será no próximo Natal.

Feliz Natal das trocas de presentes. Brinquedos caros, para os que podem. Meias e cuecas para outros. Para alguns: fome.

Feliz Natal para o menino que é o verdadeiro sentido da data, mas é esquecido todos os anos na lista de convidados. Para o menino que é o presente de Deus ao mundo, mas é trocado por coisas fúteis e passageiras. Feliz Natal para o menino que não se importa com quem você é ou o que tem. Para o menino que nasceu e, até hoje, é representado numa manjedoura, mas quer nascer nos corações.

Feliz Natal, Jesus.